terça-feira, 25 de outubro de 2016

Veraneio

Deveras, o mundo é movimento. O girar da vida tem engrenagem própria e não somos nós quem colocamos o ponteiro no relógio. Por mais que digamos a hora, não temos certeza do que acontecerá a um segundo. A roda nos põe em movimento, no entanto, estamos no lado do carona. Podemos estar com as mãos no volante, mas todo o restante está no vazio. Não podemos abarcar o veículo todo.
            Mês de março, em ensolarado dia. A matinê de estudos começou como ocorrido nos dias precedentes. Início de semestre. Exatamente sexta-feira. Orlando despede-se dos pais rapidamente para conseguir pegar o ônibus que tanto demora a passar, caso perca o horário pontual, diferente a cada dia. Minutos a mais, alguns segundos a menos. Apressar os passos e ir ao encontro da vida. Logo chegará à faculdade e, assim, encerrará o ciclo. Só porque hoje é sexta-feira, ele pode saborear aguçado a vinda do final de semana.
            Pronto. Ruas e avenidas engarrafadas. Orlando fez baldeação para a próxima condução. Passa o tempo. Agora salta em frente à Faculdade. Deve atravessar a via.
            Tenho que ir à biblioteca antes de tudo. Não quero pegar, nem de longe, a fila do horário vago.
            Começa a andar apressado pela calçada.  Mas, correr, para quê? Vou chegar mais cedo ou mais tarde. Estou de cara com o prédio.
            Suaviza o passo quando já se encontra diante da faixa de pedestres. Parte em direção à faculdade.
            Automóveis, carretas, motos, vans, caminhões e ônibus vão de um lado ao outro.


*
            Os passos suaves trotam em cadência malemolente. A velocidade condensa o fluxo dos pensamentos. Logo de manhã, o ininterrupto agir é ponderado pela sonolência existencial. Devemos cumprir os compromissos.
            A velocidade da vida traga a cada um de nós e não podemos fugir dela. A calma advém mais da consciência da caminhada do que da certeza da chegada. O trotar pode ser compassivo no enleio, mas, descomunal, pode levar qualquer um ao caos, à perda e à desgraça.
            Quero chegar logo! A mudança abrupta impele passos corredios. Orlando atravessa a rua ensimesmado, com a vontade brusca insurgente. A vida é uma via de mão dupla. Ele chega à metade da travessia. Sinal vermelho. Espere. O celular toca. Na ação cotidiana, responde à chamada. Um grupo estudantil atravessa a rua e ele vai tardio. Resvala-se na calçada, quando, em cheio, um pequeno caminhão branco lança-se de encontro ao corpo. Olhar turvo. Tudo torna-se uma mancha negra. Choque frente à frente. A máquina veloz dilacera as esperanças de Orlando chegar à calçada, à biblioteca e ir assistir à aula.
            A alvura vista dispende-se no poço avermelhado junto ao corpo. Meias brancas revelam a força do hábito.
— Meu Deus, ele está muito mal!
— Que batida horrível!
— Atropelamento em frente à faculdade, eu nunca vi!
— O sinal estava vermelho ou verde?
— Chamem os bombeiros!
— Anotem o número da placa!
— Minha nossa, ele ainda está vivo?
— Alguém sabe quem ele é?
Orlando. Achegam-se pessoas impelidas pelo impacto. Uma vida desfalece pouco a pouco. A todo tempo, morremos e vivemos.
           

*
            A turba enlouquece em momentos graves. Uma jovem procura os tênis lançados ao longe pela colisão. Encontra somente um, colocando-o perto de Orlando. Procuram o celular dele, mas ninguém consegue achá-lo. Culpam-no imprudente, apressado e desleixado.
            Chegam os bombeiros que pedem espaço para o corpo. O cuidado gera temor. A aglomeração se afasta. Com o jovem carregado, ela se dispersa. O sopro contínuo não cessa. Suspiro.

*
A pausa precede e procede a ação. Na teia vital, ela é o momento em branco, em que cada um leva ao máximo aquilo que é. Recluído em si, cada um pode ir mais longe, ouvir mais alto o recôndito, quebrar as amarras que impedem um passo a mais. A pausa é concentração e tem movimento e velocidade em diálogo. Ela irrompe na mente que trabalha incessantemente, velando e revelando a incógnita da vida. O corpo humano nunca para e, quando para, já não há pausa, ou melhor dizendo, há a infinita pausa.
Hospital. Debaixo do lençol, acima da maca, tudo é veraneio, tudo é escuridão. Inerte, o pulso pulsa, com tubo, sonda e cateteres. Novo caminho, nova direção.
Segundo contado na ampulheta. Medicação na veia. Sedativo, analgésico. Mais um minuto, mais um cilindro. Quarto vazio, corpo na cama. Porta fechada, venezianas cerradas. Ar condicionado ligado, paredes brancas.
Orlando encontra-se deitado, após duas semanas do acidente. Escuta o som longínquo dos pássaros da redondeza. Reconhece que pode ouvir ainda. Os ruídos despertam-lhe sensações. Uma fenda se abre e surge sorridente Sofia. Há quanto tempo não se nutre de seu sorriso? Aparece a faculdade, precisamente o pátio central arborizado, e o grupo de amigos. O saber se constrói no compartilhamento de experiência. A troca maior é dar-se e receber o outro. Amizade. Há quanto tempo não vê ninguém?
A marcha da vida leva-o à sala de aula, sentado ao lado da amiga, no primeiro dia do curso. Conheceram-se e a empatia vingou a cada dia mais. Cresce em nós aquilo que cultivamos no outro. Lembra-se do dia em que ficaram à tarde na biblioteca e descobriram que precisariam de pouco tempo para que o sorriso de um dialogasse com o do outro, transformando-se na marca intransponível à passagem do tempo e do espaço. Estamos no redemoinho, arrolhados por todos os lados por impressões fugidias e marcados pelos afloramentos dos sentidos. Reconstruímos a nós e aos outros no turbilhão veloz da existência. A chegada tênue e amena mostra mais o controlável descomunal empenho de conseguir sair da batida do que sair ileso do acidente. O riso iminente e eminente.
E pensar que, ao final, a despedida é o prenúncio de um novo dia, infunde-nos a verdade que custa a martelar em nossa mente: antes do fim, sempre haverá uma nova oportunidade. A mochila nas costas é o início da viagem, muitas vezes esquecida pelo ir e vir cotidiano e mensurado pelo cronômetro, ao invés de ser temperada pelo deslocamento percorrido entre a rede incutida em nós. Despedem-se como se o hoje se bastasse. Cada um segue a sua via. Quem sabe, no futuro, as trilhas convergirão ao ponto comum: o reencontro? Os pássaros calam-se e o silêncio aclara que a solidão nos faz crescer para todos os lados.


*
            A rua movimentada e o trânsito caótico. A correria habitual é uma enxurrada cortada por passos cumpridores de deveres e de fazeres. A pressa não preza pelo acabamento das solas dos pés no chão. A visão atrofiada enxerga o próximo, o imediato, o metódico e não se abre para o horizonte que se forma a cada passada dada. É um dia de inverno e os agasalhos formam pequenos quadros, em profusão de cores, de formatos, de tecidos e de tamanhos, com odores variados. Já pensou em biografar a história de cada casaco a partir do cheiro?
A conjuntura pode dizer muito, mas tudo não pode ser falado. Há o espaço em branco, o gorro que falta, a manga mais curta ou o botão que caiu e não se sabe onde. O gélido vento penetra no rosto, deixando as bochechas rosadas. O que pensar da face corada e coroada pelo obscurecimento? O céu cinza, altamente carregado, é espaçado pela chuva, torrencial e forte. Mas tenho que chegar ao meu destino.
            Orlando continua na calçada. É um transeunte a mais. Segue o rumo e vê as lojas vazias com as portas abertas. É cedo. É dia de semana. Não há feriados comemorativos de homenagem próximos. Mas as pessoas vêm e vão para os compromissos. A maior omissão, no entanto, é esquecer-se de si em qualquer habitação e deixar as portas e janelas fechadas. E se tivesse feito outro caminho?
As árvores frondosas balançam ao longo das calçadas, relembrando a frieza sentida nas ruelas. O dia enegrece e o balanço da natureza confunde-se com o arrepio da temperatura baixa. Os rostos congelados mostram-se impassíveis à criança que, correndo, tenta pegar os pombos na entrada da praça. Os bancos, com pingos de chuva, estão solitários. Hoje não há lugar para jogatina. O que será que o time dos idosos está fazendo?
            O jovem segue o rumo pelo itinerário que não é o habitual. Olha para os dois lados e vai atravessar a rua na faixa de pedestres. Quando está no meio da via, um violinista, que está tocando na esquina da rua à direita, chama sua atenção. Ele se vira rapidamente em direção do músico, e, nesse momento, uma moto o atropela. Orlando salta pelos ares e cai estático no chão.
            O sol entra pela janela, mas Orlando ainda dorme.


*
            A vida é passagem. Entramos e saímos por diversas portas, sem termos plena convicção do que está acontecendo no outro lado. Atravessamos dias e os solos fazendo novos caminhos, pois nunca nossos pés deambulam, pisam e avançam, exatamente igual, cada espaço percorrido. Um dia o pé direito pisa primeiro o lance de escadas. Em outro prédio, lança-se o esquerdo antes, e, mesmo assim, eles não calcam o mesmo trecho do chão. Nada é exatamente igual ao ser único.
            Orlando abre os olhos e sente uma assaz fisgada no coração. Somente há tempo de olhar para a janela e ver o céu azul.
            Morri.

            Respirei.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Despontar no dia

Percebo o dia que se aproxima
À madrugada vindoura
Lentamente vou à janela
Contemplo o horizonte longínquo

Na rua, poucas pessoas despontam
O sono cai sobre os joelhos
Acordado está quem tem propósito
e caminha para encontrar seu ponto

Onde há enxame há mel
Seria bom se fosse para todos
Quem procura a si na multidão
Acha-se quando se descobre outro

Por você

A vida estréia
Teu sorriso
Todo dia

Rapidez

O que foi
Não é
Entendido
já foi
Próximo lugar
Chega
Tato ao sabor
Descobrir
Mostrar-se
Apareceu
Sabido é
Nova trilha
Direção

domingo, 16 de outubro de 2016

O zum zum zum

Quebrar o silêncio requer habilidade para não ser um pé no saco. Um ah mal dado e um sim incômodo podem romper o cristal da benevolência. Onde estarão guardados os bem-estar para pessoas gentis? Por onde andarão os educados do bom dia? Aonde vão os prestativos da condução cotidiana? O gesto quebra o silêncio e nos leva para longe da afasia.
― Falo de mim porque não vou conseguir falar dos outros.
―Sério? Você acha normal quem fala dos outros e não fala de si mesmo?
―Pode ser falta do que fazer. Falta do que falar.
―É mais cômodo apontar o dedo do que ver o próprio umbigo.
―Você viu o que aconteceu com o Leonardo?
―Não falei?...

*
Abriu a porta. Saiu de casa. E deu de cara com a rua. Cara, esqueci de ligar para o Seixas. Sorriu de antemão, o dia começou agora. Nada pode ser tão difícil de ser mudado mais do que o vício. Cigarro de atraso parou sua vida. Poderia fazer respiração prende e solta, mas não conseguia. Seus passos são distantes e nem vê quem caminha ao lado. Preso em si, não consegue ver o outro. Outro quem além de mim? A cada trecho percorrido, perdia-se das amarras do passado. Não vou ver mais aquela puta.

*
Hora do almoço. Metade do dia se foi e não conseguia listar o que fez e nem catalogar cada ato realizado. Faltaria-lhe a sensatez de ouvir os momentos agudos? Não conseguia ler as páginas em branco. De um lugar para outro, despencava-se preso pelo fio da imediatez: tudo para agora; quero hoje; o resto é para depois. Sempre para depois. O que o move é o instante. Nele se vai. Acordar. Tomar banho. Escovar os dentes. Dormir. Beber. Comer. Não se atém ao respirar, ao ver, ao falar. Ação depois de ação. Ação. Ação. Ação. O ponto de contato é o pular de uma pedra a outra. Aonde quer chegar? O que quer construir? Quando vai estar pronto o atalho? Quais teias irromperão para romper o espaço? Sensibilidade?
*
Golpe súbito na porta. O tempo fechou. Sabia o que podia ver, ou melhor, o que acontecia à sua frente e olhava. Seus olhos não eram belos, somente imediatos. A trivialidade fazia-lhe abrir caminhos cujos percalços eram reprimidos. Dizia esquecê-los, mas latejavam à sua mente até que resolvia ir para o videogame. O vício de não saber agir imperava sua vida. Desejava o silêncio do esquecimento, mas não podia com a enxurrada da derrota. A avalanche descia lentamente pelos penhascos. Passava de fase e engatava a seguinte em um piscar de olhos. Um dia após o outro, e tudo parecia tão normal. Nasci e cresci.
Automático, abriu os olhos e viu a televisão ligada. Levantou-se do sofá e foi beber água. Copo na boca e, ao olhar o fundo dele, lembrou-se de que amanhã seria seu aniversário. Lembrou-se das bexigas coloridas que ajudava a encher para colocá-las nas paredes da sala com sua mãe. Muitas crianças do prédio brincavam pela casa e pelo corredor do prédio. Um ir e vir contínuos marcados pelo gosto dos refrigerantes e pelos docinhos multicoloridos trazidos em bandeja. Os risos chacoalhavam a casa inteira. Da sala à cozinha, o sorriso festejava a presença de cada um ao virar-se para o outro. Não precisava de anedota. Nem piada. Nem nada. Saudade irrompida de cada gole ingerido. Água translúcida e límpida. Fundo vazio. Silêncio.
Quando acaba é inútil querer amarrar-se nas construções destruídas. Não há paredes para poder balançar-se na rede. Vai e volta continuadamente. O olhar fixo. Não há quadros enfileirando as paredes. Não há rostos conhecidos. Partiram. Estão por aí ou já foram. Não há campainha tocando a hora da brincadeira. Subir e descer correndo. Pular das escadas. Jogar-se. Sentiu-se só e viu-se sozinho. Quem viria amanhã?

*
 Desperta o dia. Irromper na luz, saltar a poleira, ver o brilho do dia novo. Sem palavras. Poderia ter sido diferente? Poderia. Poderia achar tudo igual? Poderia. Poderia querer mudança? Sim. Deixara perpetuar, na mente, a música de domingo. A música do prelúdio da adolescência. A música da infância. Como poderia perder aquilo que está lá, na base de tudo? A subida nas árvores para pegar goiaba. A descida, na ladeira, de rolimã. O papelão, no gramado, morro abaixo. Galardão do dia.

*
―Passa tudo, mané!
Virou-se. Porrada na cara essa hora do dia? Judaria.
 ―Ei, anda cara! Raios. Absorto em pensamentos não viu, e agora?
 ―Perdeu!
Estancou-se e firmou os pés.
Puxaram-lhe a mochila e nem viu quem era.
Caído no chão, olhos ao redor. Viu prédios. Cinzas.
Levantou-se rapidamente. Era mais de um.
Tiro.
Sentiu o sangue frio.
Correria.
Aproximaram-se.
―Por que estão fazendo isso comigo?

Calou-se.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Perda

Gente, venho perdendo os escritos para postar no blog. Ficarei mais atenta em relação a isso. São muitas pastas, muitos lugares, muitos papéis. Tenho que me encontrar. Mais organização. Vem, memória.

domingo, 9 de outubro de 2016

Avalanche

Desceu morro abaixo, como uma bola, visceralmente. Entre pessoas, becos e barracos, foi abrindo passagem. Chegou no baixo e respirou. Arfando foi logo para o ponto de ônibus. Iria pegar o primeiro que passasse. Não importa para onde, queria sair dali. Tinha que sair dali. E lá vem ele... É esse mesmo!
     Dia insípido azeda a vida, mas cada um é quem coloca ou retira os condimentos que adoçam ou salgam os acontecimentos. Pode-se andar em mares de rosas e assim espinhos acometerem os pés. E isso não faz parte do caminho escolhido? A cada passo, um mundo se abre, e, independentemente de qualquer um dos pés, surge uma via, duas, três (o quê importa?), na qual, as possibilidades são delimitadas pelas escolhas. Sim, todos somos adoções e eleições, pensando em que seria sorte e em que seria azar.
     Passos em retirada pela rua movimentada. Pessoas iam e vinham sem olhar, ao menos, para os lados. Para dentro de si, nem tudo é oásis, e, por isso, viam também os outros: o namorado que saiu do trabalho à noite sem dar um telefonema, a mãe que deu o último iogurte ao filho mais novo, a vizinha que disse que Anagildo corneou Inês e que antes mesmo Inês corneou Anagildo, o pastor que ia passar mais tarde em casa, a menina que amanhã vai completar 8 anos, o chefe que é a mesma merda de sempre. Ninguém sequer olhou para os olhos de João Marcos. Ninguém lhe apertou a mão, cumprimentando-o por tê-lo visto.
     As lojas abertas recebiam os transeuntes marcados pela demora. Demora em escolher, demora em comprar. A quem visse de prima o objeto e o comprasse logo, em seguida, seriam dadas salvas de palmas. João Marcos nada compraria, pois não iria às lojas; o caminho se fazia outro, mas teve tempo de olhar o grande letreiro da lanchonete e pensar: Faz tempo que não como um hambúrguer. Segundos, minutos, horas, dias, semanas e meses. Anos. Séculos. Deveria saber o que muda e mesmo assim continua o mesmo. Deveria saber que há alimentos mais apetitosos e saudáveis. Deveria saber o quanto é relativo o poder e o querer, e, que, o dinheiro não pode comprar tudo, como a goiaba caindo da goiabeira.
     Fácil seria pensar no que sonhar e lançar o sorriso maroto aos quatro cantos. A compensação da vida não se dá com a retribuição mas com o compartilhamento. Quanto mais ao longe chegasse, mais a vida teria feito sentido. É assim que caminhava, mesmo sem saber se estava tão perto que pudesse amenizar os passos, até estancar o corpo e contemplar o raciocínio: Cheguei e devo ir de novo.
     Os ambulantes tomavam a rua e o vitupério descartável incendiava os pontos. De um lado ao outro, reduzia-se a calçada em uma mão dupla. Não se pode parar quando se restringe a passagem ao ir e vir as ações humanas. Ganha-se muito pouco para gastar-se somente pela partida e chegada. Nesse ínterim, a vida acontece. Os produtos enchem os olhos de quem está cunhado pelas marcas. De onde vem e para onde vai, não interessa a ninguém. E as etiquetas? Penduricalhos das calçadas com prazo de validade vencido.
     Lançou um olhar ao redor. A redondeza tão conhecida e, ao mesmo tempo, diferente. Poderia ir e vir milhões de vezes e não saberia dizer o que mais lhe chamava atenção. Não por indecisão, mas por causa de cada espaço que lhe cativava. Cada um tende ao gosto próprio.
     Mais adiante, as pessoas rareavam. Não havia o turbilhão de gente descompassada. Descompensava querer olhar para os lados para ver quem quer que seja. Não lhe interessava saber quem chegava, mas quem já ali estava.
     Disparou-se pelas ruas estreitas, de trânsitos intercalados. De cima abaixo, os prédios desbotados enfileiravam as calçadas. Seguia o rumo, em alerta, não poderia passar do ponto marcado. Quando o alvo é ultrapassado, nada a mais se espera, ainda que o praticamente impossível ocorra. Poderia pensar que chegou a hora e não havia para onde se esconder. No entanto, agia consciente e independentemente do que se poderia pensar sobre ele.
     _ Não nasci para ser capacho.
     Reteve os passos e à direita viu um cego ser guiado para atravessar a esquina por um jovem que se compadecei ao vê-lo tatear o vento. Amenizou a feição endurecida pela ação solar, esquentando até o último fio de cabelo.
     ­_ Calor.
     Era hora de agir.
     Tocou-lhe o cotovelo
     _ Ei, toma tua carteira. Está tudo aí.
     _ Obrigado, cara.
     Perto dele, pode-se ouvir:
     _ Seu sujo.

     Afastou-se com os olhos saltitando pelo mundaréu que se formava à sua frente. Aplausos. Os que lá estavam somente olhavam arrefecidos de onde se encontravam: da rua, dos bancos da praça, das janelas das moradias e do comércio. No palco, estava ele e, a cada passada, o tapete vermelho se abria, e caminhava incólume. Uma avalanche de aplausos chegou aos ouvidos, dos camarotes pomposos, das laterais esquecidas, do meio fervoroso, do fundo atônito e do gargarejo invisível. A cortina se abriu e lá se apresentava ele.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

O mesmo

Do mesmo floresço
a cada eclodir
lanço sorrisos

Inauguro a vida
ao sentir
o que há em mim

Perde-se o tempo

Perde-se o tempo quando não se vê o dia coisas de outras coisas Tanta chance por vir tanta gente por chegar momentos de lembranças A...