Deveras, o mundo é
movimento. O girar da vida tem engrenagem própria e não somos nós quem
colocamos o ponteiro no relógio. Por mais que digamos a hora, não temos certeza
do que acontecerá a um segundo. A roda nos põe em movimento, no entanto, estamos
no lado do carona. Podemos estar com as mãos no volante, mas todo o restante
está no vazio. Não podemos abarcar o veículo todo.
Mês
de março, em ensolarado dia. A matinê de estudos começou como ocorrido nos dias
precedentes. Início de semestre. Exatamente sexta-feira. Orlando despede-se dos
pais rapidamente para conseguir pegar o ônibus que tanto demora a passar, caso
perca o horário pontual, diferente a cada dia. Minutos a mais, alguns segundos
a menos. Apressar os passos e ir ao encontro da vida. Logo chegará à faculdade
e, assim, encerrará o ciclo. Só porque hoje é sexta-feira, ele pode saborear
aguçado a vinda do final de semana.
Pronto.
Ruas e avenidas engarrafadas. Orlando fez baldeação para a próxima condução.
Passa o tempo. Agora salta em frente à Faculdade. Deve atravessar a via.
Tenho que ir à biblioteca antes de tudo. Não
quero pegar, nem de longe, a fila do horário vago.
Começa
a andar apressado pela calçada. Mas, correr, para quê? Vou chegar mais cedo
ou mais tarde. Estou de cara com o prédio.
Suaviza
o passo quando já se encontra diante da faixa de pedestres. Parte em direção à
faculdade.
Automóveis,
carretas, motos, vans, caminhões e ônibus vão de um lado ao outro.
*
Os
passos suaves trotam em cadência malemolente. A velocidade condensa o fluxo dos
pensamentos. Logo de manhã, o ininterrupto agir é ponderado pela sonolência
existencial. Devemos cumprir os compromissos.
A
velocidade da vida traga a cada um de nós e não podemos fugir dela. A calma
advém mais da consciência da caminhada do que da certeza da chegada. O trotar
pode ser compassivo no enleio, mas, descomunal, pode levar qualquer um ao caos,
à perda e à desgraça.
Quero chegar logo! A mudança abrupta
impele passos corredios. Orlando atravessa a rua ensimesmado, com a vontade
brusca insurgente. A vida é uma via de mão dupla. Ele chega à metade da
travessia. Sinal vermelho. Espere. O celular toca. Na ação cotidiana, responde
à chamada. Um grupo estudantil atravessa a rua e ele vai tardio. Resvala-se na
calçada, quando, em cheio, um pequeno caminhão branco lança-se de encontro ao
corpo. Olhar turvo. Tudo torna-se uma mancha negra. Choque frente à frente. A
máquina veloz dilacera as esperanças de Orlando chegar à calçada, à biblioteca
e ir assistir à aula.
A
alvura vista dispende-se no poço avermelhado junto ao corpo. Meias brancas
revelam a força do hábito.
— Meu Deus, ele está
muito mal!
— Que batida horrível!
— Atropelamento em
frente à faculdade, eu nunca vi!
— O sinal estava
vermelho ou verde?
— Chamem os bombeiros!
— Anotem o número da
placa!
— Minha nossa, ele
ainda está vivo?
— Alguém sabe quem ele
é?
Orlando. Achegam-se
pessoas impelidas pelo impacto. Uma vida desfalece pouco a pouco. A todo tempo,
morremos e vivemos.
*
A
turba enlouquece em momentos graves. Uma jovem procura os tênis lançados ao
longe pela colisão. Encontra somente um, colocando-o perto de Orlando. Procuram
o celular dele, mas ninguém consegue achá-lo. Culpam-no imprudente, apressado e
desleixado.
Chegam
os bombeiros que pedem espaço para o corpo. O cuidado gera temor. A aglomeração
se afasta. Com o jovem carregado, ela se dispersa. O sopro contínuo não cessa.
Suspiro.
*
A pausa precede e
procede a ação. Na teia vital, ela é o momento em branco, em que cada um leva
ao máximo aquilo que é. Recluído em si, cada um pode ir mais longe, ouvir mais
alto o recôndito, quebrar as amarras que impedem um passo a mais. A pausa é
concentração e tem movimento e velocidade em diálogo. Ela irrompe na mente que
trabalha incessantemente, velando e revelando a incógnita da vida. O corpo
humano nunca para e, quando para, já não há pausa, ou melhor dizendo, há a
infinita pausa.
Hospital. Debaixo do
lençol, acima da maca, tudo é veraneio, tudo é escuridão. Inerte, o pulso
pulsa, com tubo, sonda e cateteres. Novo caminho, nova direção.
Segundo contado na
ampulheta. Medicação na veia. Sedativo, analgésico. Mais um minuto, mais um
cilindro. Quarto vazio, corpo na cama. Porta fechada, venezianas cerradas. Ar
condicionado ligado, paredes brancas.
Orlando encontra-se
deitado, após duas semanas do acidente. Escuta o som longínquo dos pássaros da
redondeza. Reconhece que pode ouvir ainda. Os ruídos despertam-lhe sensações.
Uma fenda se abre e surge sorridente Sofia. Há quanto tempo não se nutre de seu
sorriso? Aparece a faculdade, precisamente o pátio central arborizado, e o
grupo de amigos. O saber se constrói no compartilhamento de experiência. A
troca maior é dar-se e receber o outro. Amizade. Há quanto tempo não vê
ninguém?
A marcha da vida leva-o
à sala de aula, sentado ao lado da amiga, no primeiro dia do curso.
Conheceram-se e a empatia vingou a cada dia mais. Cresce em nós aquilo que
cultivamos no outro. Lembra-se do dia em que ficaram à tarde na biblioteca e
descobriram que precisariam de pouco tempo para que o sorriso de um dialogasse
com o do outro, transformando-se na marca intransponível à passagem do tempo e
do espaço. Estamos no redemoinho, arrolhados por todos os lados por impressões
fugidias e marcados pelos afloramentos dos sentidos. Reconstruímos a nós e aos
outros no turbilhão veloz da existência. A chegada tênue e amena mostra mais o
controlável descomunal empenho de conseguir sair da batida do que sair ileso do
acidente. O riso iminente e eminente.
E pensar que, ao final,
a despedida é o prenúncio de um novo dia, infunde-nos a verdade que custa a
martelar em nossa mente: antes do fim, sempre haverá uma nova oportunidade. A
mochila nas costas é o início da viagem, muitas vezes esquecida pelo ir e vir
cotidiano e mensurado pelo cronômetro, ao invés de ser temperada pelo
deslocamento percorrido entre a rede incutida em nós. Despedem-se como se o
hoje se bastasse. Cada um segue a sua via. Quem sabe, no futuro, as trilhas
convergirão ao ponto comum: o reencontro? Os pássaros calam-se e o silêncio
aclara que a solidão nos faz crescer para todos os lados.
*
A
rua movimentada e o trânsito caótico. A correria habitual é uma enxurrada
cortada por passos cumpridores de deveres e de fazeres. A pressa não preza pelo
acabamento das solas dos pés no chão. A visão atrofiada enxerga o próximo, o
imediato, o metódico e não se abre para o horizonte que se forma a cada passada
dada. É um dia de inverno e os agasalhos formam pequenos quadros, em profusão
de cores, de formatos, de tecidos e de tamanhos, com odores variados. Já pensou em biografar a história de cada
casaco a partir do cheiro?
A conjuntura pode dizer
muito, mas tudo não pode ser falado. Há o espaço em branco, o gorro que falta,
a manga mais curta ou o botão que caiu e não se sabe onde. O gélido vento
penetra no rosto, deixando as bochechas rosadas. O que pensar da face corada e coroada pelo obscurecimento? O céu
cinza, altamente carregado, é espaçado pela chuva, torrencial e forte. Mas tenho que chegar ao meu destino.
Orlando continua
na calçada. É um transeunte a mais. Segue o rumo e vê as lojas vazias com as
portas abertas. É cedo. É dia de semana. Não há feriados comemorativos de
homenagem próximos. Mas as pessoas vêm e vão para os compromissos. A maior
omissão, no entanto, é esquecer-se de si em qualquer habitação e deixar as
portas e janelas fechadas. E se tivesse
feito outro caminho?
As árvores frondosas
balançam ao longo das calçadas, relembrando a frieza sentida nas ruelas. O dia
enegrece e o balanço da natureza confunde-se com o arrepio da temperatura
baixa. Os rostos congelados mostram-se impassíveis à criança que, correndo,
tenta pegar os pombos na entrada da praça. Os bancos, com pingos de chuva,
estão solitários. Hoje não há lugar para jogatina. O que será que o time dos idosos está fazendo?
O
jovem segue o rumo pelo itinerário que não é o habitual. Olha para os dois
lados e vai atravessar a rua na faixa de pedestres. Quando está no meio da via,
um violinista, que está tocando na esquina da rua à direita, chama sua atenção.
Ele se vira rapidamente em direção do músico, e, nesse momento, uma moto o
atropela. Orlando salta pelos ares e cai estático no chão.
O
sol entra pela janela, mas Orlando ainda dorme.
*
A
vida é passagem. Entramos e saímos por diversas portas, sem termos plena
convicção do que está acontecendo no outro lado. Atravessamos dias e os solos
fazendo novos caminhos, pois nunca nossos pés deambulam, pisam e avançam,
exatamente igual, cada espaço percorrido. Um dia o pé direito pisa primeiro o
lance de escadas. Em outro prédio, lança-se o esquerdo antes, e, mesmo assim,
eles não calcam o mesmo trecho do chão. Nada é exatamente igual ao ser único.
Orlando
abre os olhos e sente uma assaz fisgada no coração. Somente há tempo de olhar
para a janela e ver o céu azul.
Morri.
Respirei.