domingo, 9 de outubro de 2016

Avalanche

Desceu morro abaixo, como uma bola, visceralmente. Entre pessoas, becos e barracos, foi abrindo passagem. Chegou no baixo e respirou. Arfando foi logo para o ponto de ônibus. Iria pegar o primeiro que passasse. Não importa para onde, queria sair dali. Tinha que sair dali. E lá vem ele... É esse mesmo!
     Dia insípido azeda a vida, mas cada um é quem coloca ou retira os condimentos que adoçam ou salgam os acontecimentos. Pode-se andar em mares de rosas e assim espinhos acometerem os pés. E isso não faz parte do caminho escolhido? A cada passo, um mundo se abre, e, independentemente de qualquer um dos pés, surge uma via, duas, três (o quê importa?), na qual, as possibilidades são delimitadas pelas escolhas. Sim, todos somos adoções e eleições, pensando em que seria sorte e em que seria azar.
     Passos em retirada pela rua movimentada. Pessoas iam e vinham sem olhar, ao menos, para os lados. Para dentro de si, nem tudo é oásis, e, por isso, viam também os outros: o namorado que saiu do trabalho à noite sem dar um telefonema, a mãe que deu o último iogurte ao filho mais novo, a vizinha que disse que Anagildo corneou Inês e que antes mesmo Inês corneou Anagildo, o pastor que ia passar mais tarde em casa, a menina que amanhã vai completar 8 anos, o chefe que é a mesma merda de sempre. Ninguém sequer olhou para os olhos de João Marcos. Ninguém lhe apertou a mão, cumprimentando-o por tê-lo visto.
     As lojas abertas recebiam os transeuntes marcados pela demora. Demora em escolher, demora em comprar. A quem visse de prima o objeto e o comprasse logo, em seguida, seriam dadas salvas de palmas. João Marcos nada compraria, pois não iria às lojas; o caminho se fazia outro, mas teve tempo de olhar o grande letreiro da lanchonete e pensar: Faz tempo que não como um hambúrguer. Segundos, minutos, horas, dias, semanas e meses. Anos. Séculos. Deveria saber o que muda e mesmo assim continua o mesmo. Deveria saber que há alimentos mais apetitosos e saudáveis. Deveria saber o quanto é relativo o poder e o querer, e, que, o dinheiro não pode comprar tudo, como a goiaba caindo da goiabeira.
     Fácil seria pensar no que sonhar e lançar o sorriso maroto aos quatro cantos. A compensação da vida não se dá com a retribuição mas com o compartilhamento. Quanto mais ao longe chegasse, mais a vida teria feito sentido. É assim que caminhava, mesmo sem saber se estava tão perto que pudesse amenizar os passos, até estancar o corpo e contemplar o raciocínio: Cheguei e devo ir de novo.
     Os ambulantes tomavam a rua e o vitupério descartável incendiava os pontos. De um lado ao outro, reduzia-se a calçada em uma mão dupla. Não se pode parar quando se restringe a passagem ao ir e vir as ações humanas. Ganha-se muito pouco para gastar-se somente pela partida e chegada. Nesse ínterim, a vida acontece. Os produtos enchem os olhos de quem está cunhado pelas marcas. De onde vem e para onde vai, não interessa a ninguém. E as etiquetas? Penduricalhos das calçadas com prazo de validade vencido.
     Lançou um olhar ao redor. A redondeza tão conhecida e, ao mesmo tempo, diferente. Poderia ir e vir milhões de vezes e não saberia dizer o que mais lhe chamava atenção. Não por indecisão, mas por causa de cada espaço que lhe cativava. Cada um tende ao gosto próprio.
     Mais adiante, as pessoas rareavam. Não havia o turbilhão de gente descompassada. Descompensava querer olhar para os lados para ver quem quer que seja. Não lhe interessava saber quem chegava, mas quem já ali estava.
     Disparou-se pelas ruas estreitas, de trânsitos intercalados. De cima abaixo, os prédios desbotados enfileiravam as calçadas. Seguia o rumo, em alerta, não poderia passar do ponto marcado. Quando o alvo é ultrapassado, nada a mais se espera, ainda que o praticamente impossível ocorra. Poderia pensar que chegou a hora e não havia para onde se esconder. No entanto, agia consciente e independentemente do que se poderia pensar sobre ele.
     _ Não nasci para ser capacho.
     Reteve os passos e à direita viu um cego ser guiado para atravessar a esquina por um jovem que se compadecei ao vê-lo tatear o vento. Amenizou a feição endurecida pela ação solar, esquentando até o último fio de cabelo.
     ­_ Calor.
     Era hora de agir.
     Tocou-lhe o cotovelo
     _ Ei, toma tua carteira. Está tudo aí.
     _ Obrigado, cara.
     Perto dele, pode-se ouvir:
     _ Seu sujo.

     Afastou-se com os olhos saltitando pelo mundaréu que se formava à sua frente. Aplausos. Os que lá estavam somente olhavam arrefecidos de onde se encontravam: da rua, dos bancos da praça, das janelas das moradias e do comércio. No palco, estava ele e, a cada passada, o tapete vermelho se abria, e caminhava incólume. Uma avalanche de aplausos chegou aos ouvidos, dos camarotes pomposos, das laterais esquecidas, do meio fervoroso, do fundo atônito e do gargarejo invisível. A cortina se abriu e lá se apresentava ele.

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