Quebrar o silêncio requer
habilidade para não ser um pé no saco. Um ah mal dado e um sim incômodo podem
romper o cristal da benevolência. Onde estarão guardados os bem-estar para
pessoas gentis? Por onde andarão os educados do bom dia? Aonde vão os
prestativos da condução cotidiana? O gesto quebra o silêncio e nos leva para
longe da afasia.
― Falo de mim porque não
vou conseguir falar dos outros.
―Sério? Você acha normal
quem fala dos outros e não fala de si mesmo?
―Pode ser falta do que
fazer. Falta do que falar.
―É mais cômodo apontar o
dedo do que ver o próprio umbigo.
―Você viu o que aconteceu
com o Leonardo?
―Não falei?...
*
Abriu a porta. Saiu de
casa. E deu de cara com a rua. Cara, esqueci de ligar para o Seixas. Sorriu de
antemão, o dia começou agora. Nada pode ser tão difícil de ser mudado mais do
que o vício. Cigarro de atraso parou sua vida. Poderia fazer respiração prende
e solta, mas não conseguia. Seus passos são distantes e nem vê quem caminha ao
lado. Preso em si, não consegue ver o outro. Outro quem além de mim? A cada
trecho percorrido, perdia-se das amarras do passado. Não vou ver mais aquela
puta.
*
Hora do almoço. Metade do
dia se foi e não conseguia listar o que fez e nem catalogar cada ato realizado.
Faltaria-lhe a sensatez de ouvir os momentos agudos? Não conseguia ler as
páginas em branco. De um lugar para outro, despencava-se preso pelo fio da
imediatez: tudo para agora; quero hoje; o resto é para depois. Sempre para
depois. O que o move é o instante. Nele se vai. Acordar. Tomar banho. Escovar
os dentes. Dormir. Beber. Comer. Não se atém ao respirar, ao ver, ao falar.
Ação depois de ação. Ação. Ação. Ação. O ponto de contato é o pular de uma
pedra a outra. Aonde quer chegar? O que quer construir? Quando vai estar pronto
o atalho? Quais teias irromperão para romper o espaço? Sensibilidade?
*
Golpe súbito na porta. O
tempo fechou. Sabia o que podia ver, ou melhor, o que acontecia à sua frente e
olhava. Seus olhos não eram belos, somente imediatos. A trivialidade fazia-lhe
abrir caminhos cujos percalços eram reprimidos. Dizia esquecê-los, mas
latejavam à sua mente até que resolvia ir para o videogame. O vício de não
saber agir imperava sua vida. Desejava o silêncio do esquecimento, mas não
podia com a enxurrada da derrota. A avalanche descia lentamente pelos
penhascos. Passava de fase e engatava a seguinte em um piscar de olhos. Um dia
após o outro, e tudo parecia tão normal. Nasci e cresci.
Automático, abriu os olhos
e viu a televisão ligada. Levantou-se do sofá e foi beber água. Copo na boca e,
ao olhar o fundo dele, lembrou-se de que amanhã seria seu aniversário. Lembrou-se
das bexigas coloridas que ajudava a encher para colocá-las nas paredes da sala
com sua mãe. Muitas crianças do prédio brincavam pela casa e pelo corredor do
prédio. Um ir e vir contínuos marcados pelo gosto dos refrigerantes e pelos
docinhos multicoloridos trazidos em bandeja. Os risos chacoalhavam a casa
inteira. Da sala à cozinha, o sorriso festejava a presença de cada um ao
virar-se para o outro. Não precisava de anedota. Nem piada. Nem nada. Saudade
irrompida de cada gole ingerido. Água translúcida e límpida. Fundo vazio.
Silêncio.
Quando acaba é inútil
querer amarrar-se nas construções destruídas. Não há paredes para poder
balançar-se na rede. Vai e volta continuadamente. O olhar fixo. Não há quadros
enfileirando as paredes. Não há rostos conhecidos. Partiram. Estão por aí ou já
foram. Não há campainha tocando a hora da brincadeira. Subir e descer correndo.
Pular das escadas. Jogar-se. Sentiu-se só e viu-se sozinho. Quem viria amanhã?
*
Desperta o dia. Irromper na luz, saltar a
poleira, ver o brilho do dia novo. Sem palavras. Poderia ter sido diferente?
Poderia. Poderia achar tudo igual? Poderia. Poderia querer mudança? Sim.
Deixara perpetuar, na mente, a música de domingo. A música do prelúdio da
adolescência. A música da infância. Como poderia perder aquilo que está lá, na
base de tudo? A subida nas árvores para pegar goiaba. A descida, na ladeira, de
rolimã. O papelão, no gramado, morro abaixo. Galardão do dia.
*
―Passa tudo, mané!
Virou-se. Porrada na cara
essa hora do dia? Judaria.
―Ei, anda cara! Raios. Absorto em pensamentos
não viu, e agora?
―Perdeu!
Estancou-se e firmou os
pés.
Puxaram-lhe a mochila e
nem viu quem era.
Caído no chão, olhos ao
redor. Viu prédios. Cinzas.
Levantou-se rapidamente.
Era mais de um.
Tiro.
Sentiu o sangue frio.
Correria.
Aproximaram-se.
―Por que estão fazendo
isso comigo?
Calou-se.
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