domingo, 16 de outubro de 2016

O zum zum zum

Quebrar o silêncio requer habilidade para não ser um pé no saco. Um ah mal dado e um sim incômodo podem romper o cristal da benevolência. Onde estarão guardados os bem-estar para pessoas gentis? Por onde andarão os educados do bom dia? Aonde vão os prestativos da condução cotidiana? O gesto quebra o silêncio e nos leva para longe da afasia.
― Falo de mim porque não vou conseguir falar dos outros.
―Sério? Você acha normal quem fala dos outros e não fala de si mesmo?
―Pode ser falta do que fazer. Falta do que falar.
―É mais cômodo apontar o dedo do que ver o próprio umbigo.
―Você viu o que aconteceu com o Leonardo?
―Não falei?...

*
Abriu a porta. Saiu de casa. E deu de cara com a rua. Cara, esqueci de ligar para o Seixas. Sorriu de antemão, o dia começou agora. Nada pode ser tão difícil de ser mudado mais do que o vício. Cigarro de atraso parou sua vida. Poderia fazer respiração prende e solta, mas não conseguia. Seus passos são distantes e nem vê quem caminha ao lado. Preso em si, não consegue ver o outro. Outro quem além de mim? A cada trecho percorrido, perdia-se das amarras do passado. Não vou ver mais aquela puta.

*
Hora do almoço. Metade do dia se foi e não conseguia listar o que fez e nem catalogar cada ato realizado. Faltaria-lhe a sensatez de ouvir os momentos agudos? Não conseguia ler as páginas em branco. De um lugar para outro, despencava-se preso pelo fio da imediatez: tudo para agora; quero hoje; o resto é para depois. Sempre para depois. O que o move é o instante. Nele se vai. Acordar. Tomar banho. Escovar os dentes. Dormir. Beber. Comer. Não se atém ao respirar, ao ver, ao falar. Ação depois de ação. Ação. Ação. Ação. O ponto de contato é o pular de uma pedra a outra. Aonde quer chegar? O que quer construir? Quando vai estar pronto o atalho? Quais teias irromperão para romper o espaço? Sensibilidade?
*
Golpe súbito na porta. O tempo fechou. Sabia o que podia ver, ou melhor, o que acontecia à sua frente e olhava. Seus olhos não eram belos, somente imediatos. A trivialidade fazia-lhe abrir caminhos cujos percalços eram reprimidos. Dizia esquecê-los, mas latejavam à sua mente até que resolvia ir para o videogame. O vício de não saber agir imperava sua vida. Desejava o silêncio do esquecimento, mas não podia com a enxurrada da derrota. A avalanche descia lentamente pelos penhascos. Passava de fase e engatava a seguinte em um piscar de olhos. Um dia após o outro, e tudo parecia tão normal. Nasci e cresci.
Automático, abriu os olhos e viu a televisão ligada. Levantou-se do sofá e foi beber água. Copo na boca e, ao olhar o fundo dele, lembrou-se de que amanhã seria seu aniversário. Lembrou-se das bexigas coloridas que ajudava a encher para colocá-las nas paredes da sala com sua mãe. Muitas crianças do prédio brincavam pela casa e pelo corredor do prédio. Um ir e vir contínuos marcados pelo gosto dos refrigerantes e pelos docinhos multicoloridos trazidos em bandeja. Os risos chacoalhavam a casa inteira. Da sala à cozinha, o sorriso festejava a presença de cada um ao virar-se para o outro. Não precisava de anedota. Nem piada. Nem nada. Saudade irrompida de cada gole ingerido. Água translúcida e límpida. Fundo vazio. Silêncio.
Quando acaba é inútil querer amarrar-se nas construções destruídas. Não há paredes para poder balançar-se na rede. Vai e volta continuadamente. O olhar fixo. Não há quadros enfileirando as paredes. Não há rostos conhecidos. Partiram. Estão por aí ou já foram. Não há campainha tocando a hora da brincadeira. Subir e descer correndo. Pular das escadas. Jogar-se. Sentiu-se só e viu-se sozinho. Quem viria amanhã?

*
 Desperta o dia. Irromper na luz, saltar a poleira, ver o brilho do dia novo. Sem palavras. Poderia ter sido diferente? Poderia. Poderia achar tudo igual? Poderia. Poderia querer mudança? Sim. Deixara perpetuar, na mente, a música de domingo. A música do prelúdio da adolescência. A música da infância. Como poderia perder aquilo que está lá, na base de tudo? A subida nas árvores para pegar goiaba. A descida, na ladeira, de rolimã. O papelão, no gramado, morro abaixo. Galardão do dia.

*
―Passa tudo, mané!
Virou-se. Porrada na cara essa hora do dia? Judaria.
 ―Ei, anda cara! Raios. Absorto em pensamentos não viu, e agora?
 ―Perdeu!
Estancou-se e firmou os pés.
Puxaram-lhe a mochila e nem viu quem era.
Caído no chão, olhos ao redor. Viu prédios. Cinzas.
Levantou-se rapidamente. Era mais de um.
Tiro.
Sentiu o sangue frio.
Correria.
Aproximaram-se.
―Por que estão fazendo isso comigo?

Calou-se.

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